Na exposição “como chegar – como partir”, Karina Dias propõe ao visitante uma breve, mas profunda, viagem de reconhecimento do extremo sul do continente americano. Este pequeno-grande pedaço do antigo supercontinente de Gondwana ganha na arte de Karina uma força expressiva, quase monumental. Ao mesmo tempo, íntima. As obras, dentre elas muitas inéditas, partiram dos relatos, dos arquivos e lembranças das viagens empreendidas pela artista, ao lado seu marido, desde 1995. Nesta primeira viagem, foram 248 dias de estrada passando pelos interiores do Brasil, Paraguai, Bolívia, Uruguai, Argentina, Chile e Peru. Territórios marcados pela beleza, pelas planícies, pelas montanhas, lagos e ilhas, mas também pela violência contra os povos originários e as populações campesinas. Muita história, muito chão, muitos quilômetros rodados até a Terra do Fogo, o antigo limite das imaginações, outrora chamada de Karukinka (Nossa terra) pelos onas. Onde o fim começa.
Na exposição, podemos reconhecer, nas duas dezenas de obras (vídeos, projeções, manipulações digitais, fotografias, objetos e poesia) uma característica do trabalho da artista: conseguir transformar trajetórias, viagens, mapas, cartografias terrestres e navais em marcadores afetivos, por vezes silenciosos ou carregados pelo murmúrio do tempo e das emoções que transbordam diante da presença da natureza. Na exposição, Karina nos oferece um conjunto de paisagens e cartografias entremeadas de relatos poéticos, onde é preciso “aprender a estar no vento” e não contra ele. Sua poesia está profundamente atrelada ao nomadismo da caminhada e o sedentarismo do arquivo. Daí, as contradições do deslocamento e da imobilidade. Daí o encantamento que suas obras suscitam e provocam num público desacostumado à contemplação. A ambição da mostra é reunir trabalhos que conectam quem olha com o que está sendo olhado, na ausência das vizinhanças.
